O QUE É UMA CÂMERA?

Postado em 07/12/2015 por Carlos Ebert
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A pergunta é genérica. Antes de ir para as cameras cinematográficas digitais – que é o que nos interessa por aqui, vale refletir brevemente sobre algumas definições e colocações a respeito do que seja uma câmera. Sozinha. Sem adjetivações.

A fotógrafa Dorothea Lange (USA, 1895-1965), decifrou grande parte desse mistério ao afirmar que “A câmera é um instrumento que ensina as pessoas a ver sem uma câmera.” Antes dela, o escritor Emile Zola (FRA 1840-1902) ,aproximou essa hipótese ao dizer que; “Não se pode dizer que tenhamos visto alguma coisa até que tenhamos visto uma fotografia dela, revelando um monte de aspectos que de outra forma passariam desapercebidos, e que na maioria dos casos não poderiam ser analisados.” Essa percepção da fotografia como uma espécie de “ efeito de distanciamento da realidade”, que permitiria ver as coisas num outro contexto onde se se revelam suas essencialidades mais íntimas – como num plano hiper-realista, é cara a muitos fotógrafos, cineastas e documentaristas.

Enquadrada e iluminada – destacada do contexto original, qualquer coisa adquire outra dimensão perceptual e cognitiva para o espectador. Dimensões essas que resultam igualmente em outras relações formais, estéticas e de significado com o entorno. Uma “nova verdade” sobre essa coisa é estabelecida, e como bem disse Jean-Luc Godard (FRA/SUI 1930) “A Fotografia é a verdade e o Cinema é a verdade 24 vezes por segundo”.

Como convive a transposição/transcriação do real pela câmera com essa ideia de “verdade”, é e será uma questão para muito livros, filmes e infindáveis discussões e digressões. Aqui nos interessa pensar a câmera cinematográfica em sua versão digital, como um aparato técnico que registra imagens em movimento. Ou colocado de uma forma ainda mais chã, um “dispositivo que transforma fótons em elétrons. Luz em eletricidade. Todo o resto é arte, documentação, criação, imaginação, devaneio etc, etc…

Uma objetiva composta de elementos ópticos (lentes), altera a luz que passa através dela e forma uma imagem sobre uma malha de pequenas células foto-elétricas (sensel). O sinal elétrico; proporcional a quantidade de luz, é processado primeiro analogicamente e depois digitalmente, para ser gravado num suporte (tape, cartão, HD etc). Atrás desse aparato, o elemento mais importante: O Cinematógrafo. Você; com suas percepções, bagagem cultural, repertório visual, propostas estéticas e formais, modelos narrativos e tudo mais que Vc entenda pertinente a arte de cinematografar. Cinematografar – que literalmente é registrar o movimento, é na prática uma atividade altamente complexa e elaborada, que engloba da física das partículas à História das Artes Visuais. Mais do que uma extensão do olhar que lança hipóteses sobre o que vemos, retendo aquelas que se mostram mais consistentes com o que já conhecemos, a câmera é uma ferramenta de recriação/transcriação do real.

A técnica cinematográfica é parte importante do processo de criação, mas não é mais do que o olhar do cinematógrafo. E enquanto a técnica pode ser aprendida em relativamente pouco tempo, refinar o olhar é o trabalho de uma vida. Muitos autores nos advertem sobre o “fetiche da técnica”. E fazem muito bem. A câmera está para o audiovisual com o instrumento para a musica: nenhum dos dois faz nada por si só. Investir na educação do olhar certamente é tão o mais importante para o cinematógrafo do que estudar a técnica. Pense nisso.