O OLHO DA MASHA

Postado em 10/06/2015 por Carlos Ebert
olho-masha

Assisto a tarde um desenho animado no computador, com minha neta no colo. Ela completou 2 anos a menos de um mês. O desenho narra as aventuras de um velho urso circense aposentado, e de uma menininha levada da breca que o adora. A neta ama a série. Assiste com devoção. No episódio em questão, o urso prepara uma poção para reviver suas papoulas que murcharam. Num de seus testes no canteiro, ele deixa aberta a porta do laboratório. Masha – curiosa por natureza, sobe na bancada e derrama a poção sobre sí. Ato contínuo, começa a crescer até que fica entalada na casa de 2 andares onde vive o urso. Seu enorme olho verde passa a ocupar toda a janela do sotão.

Essa imagem: um olho ocupando toda a janela do sotão de uma casa num bosque. Encanta e amedronta a neta. Repete sem parar: “O olho da Masha! O olho da Masha!. Procuro tranquiliza-la, mostrando que depois, ao final do desenho, ela volta ao seu tamanho normal, que de qualquer maneira ainda é meio fora de escala se comparado ao velho urso.

Mais tarde, depois que ela se foi, fiquei pensando naquela imagem surreal. Uma casa com um enorme olho ocupando a janela mais alta. Será que isso ficará gravado por algum tempo na sua mente? Sua atitude não demonstrava apenas medo. Tinha igualmente um componente de fascinação e encanto. Embora crianças sejam naturalmente abertas a qualquer delírio imaginativo, aquela imagem havia evidentemente mexido com ela. “O olho da Masha! O Olho da Masha!”

Fui levado às minhas memórias mais remotas dentro de uma sala de projeção. Tangencio – mas sem conseguir embarcar, uma sensação de excitação e deslumbramento que me acometia quando assistia aos seriados depois da aula de catecismo na paróquia das Laranjeiras . A projeção em 16mm era escura e interrompida por panes diversas. Mesmo assim, Flash Gordon, Comando Cody e Fu Manchú me tiravam daquela sala semi escurecidae com bancos de igreja à guisa de poltronas, e me lançavam num mundo de fantasia, onde tudo era possível. A neta entretanto tem pelo menos uns seis anos a menos do que eu nas minhas memórias. Imagino que a sensação de estranheza dela seja muito maior. Certamente não tem nenhuma certeza de que pessoas possam espichar e encolher em escalas absurdas (Masha ao crescer chega a dar uma cabeçada na lua…).

Penso na infância pré-cinema. Como era? Aonde estavam as imagens e os estímulos que lançavam a criança na fantasia? De onde saiam as fadas os monstros e os gnomos? Da leitura a beira da cama pelos pais e avós? Dos vitrais da catedrais?

A provocação da imaginação pela imagem cinematográfica tem um poder espantoso, que a nossa época – com sua superabundância de imagens em movimento repletas de computação gráfica e trucagens digitais, vem amortecendo e dissipando.

O que eu mais gostaria nesse momento seria sentir novamente aquele arrepio que percorria a espinha, quando O Comando Cody – após correr alguns metros, acionava um reostato no peito e saia voando com sua capa tremulando numa paisagem de blue screen.

Deve ser isso que chamam de “A Magia do Cinema”…