O OFICIO DO CINEMATÓGRAFO

Postado em 20/05/2015 por Carlos Ebert
semana-abc-2015

Apresentação da mesa na Semana ABC 2015

Convidado por Lauro Escorel para moderar a mesa “Caminhos da Cinematografia: o ofício”, durante a Semana ABC 2015 optei por escrever o texto de abertura para ser o mais breve e objetivo possível. Cada participante dispunha de 15 minutos para fazer sua exposição, e ao final tivemos um debate. Segue o texto:

“Já houve quem se referisse a ela como um “casamento”, ou até mesmo como uma relação entre irmãos. Exagero ou não, o certo é que a relação entre diretor de cena e diretor de fotografia implica numa enorme cumplicidade, numa partilha de gostos e preferências estéticas e num entendimento humano que extrapola o âmbito do meramente profissional. Desde os primordios do cinema, vemos essas parcerias. Bill Bitzer e Griffith (490 filmes juntos!), Fritz Arno Wagner e Fritz Lang, Eduard Tissé e Eisenstein (21 créditos), Otello Martelli e Roberto Rossellini, Raoul Coutard e Jean-Luc Godard (26 titulos juntos) e tantas outras duplas, onde hora um são os olhos e outro a mente, e vice-versa.

Podemos afirmar sem medo de errar, que a complexidade crescente da técnica cinematográfica tende a afastar os parceiros ao fazer com que cada um dedique cada vez mais tempo a seus próprios afazeres, fora e dentro do set. A natureza da relação criativa, também se modificou bastante com a expansão das referências nas artes visuais e dramáticas. Contudo a eleição mútua permanece e permanecerá na medida em que filmes são feitos de imagens e idéias.

A relação do cinematógrafo – para permanecer na metáfora do “casamento”, é também uma relação aberta e polimorfa, na medida em que ele se relaciona ao mesmo tempo com muitos outros parceiros criativos, quais sejam: a arte, o figurino, a maquiagem, os efeitos especiais, a finalização etc…

Com cada um desses parceiros, os interesses são distintos, mas todos se harmonizam no núcleo central; que é o filme em que colaboram.

Por ser o último a entrar na cena – já que aponta sua objetiva para o trabalho concluído dos demais, o diretor de fotografia para estar em sintonia e concordância estética e artística com o que vai captar, deve – antes desse encontro no set, desenvolver todo um trabalho prévio de consulta e troca de informações e idéias para construir e gerar uma obra coerente e rica em significados.

O espaço e o tempo para o cinematógrafo exercer seu ofício e sua arte, variam muito, em função de seus parceiros, das personalidades artísticas e humanas dos mesmos e das características da produção em que estão envolvidos. Como na

Natureza, para sobreviver o cinematógrafo tem que se adaptar as condições do meio ambiente. Permanece atuando aquele que consegue – preservando a qualidade do seu trabalho, se adaptar às inúmeras variáveis presentes em cada produção.

 Conta a tradição, que em sua aula inaugural no Centro Sperimentale di Cinematografia em Roma, o diretor Carlo Lizzani dizia – depois de tecer um longo solilóquio sobre as agruras do ofício, que a condição fundamental para que alguém se dedicasse ao cinema era ter…….. saúde! E quem está nessa, sabe bem que isso é verdade. São longas as jornadas, e para cada minuto no set são outros tantos na van. Trabalha-se nisso mais pelo gosto e pelo prazer do que por qualquer outra razão ou motivo.

Com a migração do foto-químico para o digital, muitas mudanças aconteceram, não só no operacional como também na criação. Novos players entraram, enquanto outros saíram de cena. Cargos foram criados, relações reprogramadas e tarefas modificadas. Na essência, permanecem as hierarquias, o espírito de equipe, a colaboração amistosa, o respeito profissional e o desejo de superação. Essa é a nossa atividade e esse é um bom momento para conversar e aprofundar nosso entendimento sobre ela. A idéia aqui foi reunir profissionais de diferentes gerações e escolas para pensar o momento atual e o futuro da nossa profissão. Seria pois interessante, saber em que medida o que acabo de dizer, coincide ou não, com as experiências profissionais mais recentes de vocês.

Passo a palavra para os colegas…”