FIAT LUX

Postado em 24/04/2015 por Carlos Ebert
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O ano de 2015 foi declarado o Ano Internacional da Luz (IYL) pela Organização das Nações Unidas. Organizações, instituições e indivíduos envolvidos na ciência e nas aplicações da luz vão se unir para esta celebração de um ano, para ajudar a divulgar o que sabemos sobre as maravilhas da luz. Da minha parte – mais usuário da luz do que seu estudioso, resta ter isso em mente cada vez que realizar uma captação em foto ou cinema.

Com todo o conhecimento científico que o homem já possui sobre a luz, apreciar sua interação com a realidade material à nossa volta é um exercício infinito e apaixonante. Desde que adquiri um telefone celular dotado de uma camera com qualidade razoável, comecei a fazer fotos e a publicar pelo menos uma por dia – editada e finalizada, no aplicativo Instagram. Mais do que fazer parte de uma rotina de olhar e ver, a prática logo se configurou como um exercício de enxergar coisas banais lá onde elas estão, sem muita evidência ou chamativo, mas dispostas a serem encontradas e reveladas.

O filosofo austríaco Ludwig Wittgenstein observou – com a precisão fulminante que lhe era peculiar, que “em arte não existe melhor assunto do que não ter assunto”.   Entendo sua observação como um aviso de que a anedota ou “o assunto” presente numa foto, não é o que importa, mas sim de que maneira o fotógrafo revela aquela porção do real. Em outras palavras, importa mais o como olhar do que o que é olhado. Como o que revela o real para o olhar é a luz em suas interações com a matéria pela absorção, reflexão, refração, difração etc, são essas interações que se constituem a busca e no objetivo do fotógrafo/cinematógrafo.

Quando Monet pintou entre 1892 and 1893 as mais de trinta telas com a catedral de Rouen, seu interesse estava focado muito mais nas interações da luz com a pedra, do que nas formas mesmas esculpidas da construção. Quando falou sobre a luz no cinema Fellini não foi econômico: “A luz é a substância do filme e é porque a luz é, no cinema, ideologia, sentimento, cor, tom, profundidade, atmosfera, narrativa. A luz é aquilo que acrescenta, reduz, exalta, torna crível e aceitável o fantástico, o sonho ou, ao contrário, torna fantástico o real, transforma em miragem a rotina, acrescenta transparência, sugere tensão, vibrações. A luz esvazia um rosto ou lhe dá brilho… A luz é o primeiro dos efeitos especiais, considerados como trucagem, como artifício, como encantamento, laboratório de alquimia, máquina do maravilhoso. A luz é o sal alucinatório que, queimando, destaca as visões…” (saiba mais)

Sempre que posso ou me lembro, recomendo a quem trabalha ou estuda comigo, que ande sempre com uma camera qualquer a guisa de caderneta de anotações visuais. O olhar se educa, se constroi e se refina. Há que remover as muitas camadas superpostas de ruído para que a imagem se revele em todo o seu esplendor. Ou como disse um menino prodígio que esculpia animais com perfeição fotográfica, quando foi indagado sobre como procedia para chegar àquele resultado: “É simples. Eu escolho um pedaço de madeira e com o canivete retiro tudo o que não é do coelho…