DAS SOMBRAS

Postado em 01/04/2015 por Carlos Ebert
das-sombras

“Onde há luz, há sombras.” Truísmo

  • Sombra. substantivo feminino
  • Claridade atenuada pela interposição de um corpo entre ela e a fonte de luz.
  • Silhueta que um corpo desenha numa superfície quando ele se interpõe entre ela e o sol ou uma fonte de luz.
  • Ausência de luz. Escuridão. Trevas.

E por aí seguem os sinônimos, ficando mais particulares e específicos.

Para quem captura imagens – paradas ou em movimento, as sombras contam. E muito. Desde a fobia dos filmes publicitários , onde a descoberta de uma sombra em quadro corresponde à localização um herege num convento, até a magia dos filmes expressionistas alemães dos anos 10 e 20, onde elas reinavam soberanas contando as histórias, muitas vezes mais até do que os sujeitos que as produziam.

A natureza das sombras no que diz respeito à nitidez de suas bordas , relaciona-se diretamente com a área, o tamanho da superfície que emite a luz. Regra geral: quanto maior o tamanho da fonte de luz, menor a nitidez da sombra, e vice-versa. O exemplo clássico disso é a sua sombra num dia de sol e num dia nublado. Para fins práticos, o sol é uma fonte pontual de luz. A sombra que produz é nítida ou “dura”, no jargão fotográfico. Já quando está encoberto por nuvens, as sombras ficam tão tênues que as vezes só são perceptíveis quando nos aproximamos muito do antepararo, quase tocando-o.

Com todas as possibilidades de intervenção a que o fotógrafo pode submeter um facho de luz – espalhando, difundindo, rebatendo etc, as possibilidades de modular as sombras numa cena são praticamente infinitas.

Hoje tem-se como paradigma que um sujeito só pode projetar uma, e apenas uma, sombra sobre o anteparo que lhe é próximo. Nem sempre foi assim. Revendo outro dia A Grande Ilusão do Jean Renoir, vi planos próximos com 3 sombras. Naquela época se o efeito de luz desejado no sujeito fosse alcançado, as sombras que se danassem… Não sei localizar em que momento na história do cinema as múltiplas sombras se tornaram uma maldição, mas a verdade é que ela pesa sobre nós desde então.

O auge do uso da sombra como elemento expressivo na imagem cinematográfica certamente se localiza no expressionismo alemão , e se fosse para escolher um entre os muitos cineastas do período, ficaria com Fritz Lang. Seu clássico “M”, sugere o itinerário de um infanticida pelo deslocamento da sua sombra na tela, guardando a revelação plena da sua identidade para a cena do julgamento pelos mendigos, no final do filme.

No outro extremo da imagem cinematográfica estão os filmes publicitários rodados em fundo infinito. O fundo infinito talvez seja a maior invenção da publicidade em todos os tempos. Ao retirar da imagem o contexto espacial que provê distâncias, escalas, profundidades etc, o fundo infinito permite a concentração do olhar diretamente sobre o produto ou em quem o está anunciando. Um avanço na reificação da imagem cinematográfica.

Entre esses dois extremos temos inúmeros exemplos da utilização das sombras como elemento expressivo na narrativa audiovisual.

O filme noir americano do anos 30 a 50, talvez seja o momento onde o jogo das sombras atinge o nível de uma narrativa visual sútil e sofisticada. Jogar com as sombras com a tecnologia foto-química podia ser bem complicado principalmente se comparado com a facilidade que temos hoje em modular brilhos e contrastes na imagem digital .

Me vem a lembrança de uma cena em O Ano Passado em Mariembad, 1961, de Alain Resnais, em que a direção de arte (Jacques Saulnier), e a de fotografia (Sacha Vierny) recorrem ao truque de pintar as sombras no chão para obter a profundidade desejada no negro das sombras.

A associação das sombras com os objetos que as produzem se constitui num poderoso indicador do movimento desses últimos. Entretando, temos isso tão automatizado em nosso cérebro, que só nos damos conta quando por meio de um aplicativo, conseguimos dissociar as sombras dos objetos. (baixar o aplicativo)

Aprender a valorizar e a usar as sombras como elemento narrativo no discurso cinematográfico, equivale para o diretor de fotografia a saber adjetivar um texto com propriedade. Sombras: ame-as e use-as.