A ESCOLHA DO EQUIPAMENTO INFLUENCIA A LINGUAGEM?

Postado em 08/04/2015 por Carlos Ebert
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Com certeza. Da portabilidade e ergonomia até a qualidade da imagem gerada, as características de uma câmera influenciam – e muito, a maneira como as imagens são captadas, o que resulta numa linguagem cinematográfica específica.

Nos primordios do cinema, a câmera era tocada a manivela e ficava fixa sobre o tripé, fazendo um plano geral na altura do olho. Imagino que tocar a manivela e fazer uma panorâmica pudesse criar problemas de coordenação motora bem incomodos.

Porter aproximou a câmera do personagem e deixou a platéia gritando: As pernas!!! As pernas!!!.  Pastrone, e depois Griffith, puseram-na sobre um carrinho e descobriram que deslocar o ponto de vista durante a tomada emprestava uma dinâmica incrível ao plano. Dziga Vertov alucinou de vez, deambulando com a câmera por onde a imaginação o levasse.

Até os anos 30, as Parvos e Mitchells, pesando mais de 50kg, faziam com que o deslocamento da câmera fosse muito trabalhoso. O surgimento durante a guerra das Arriflex e depois das Cameflex abriu um novo caminho para a linguagem do cinema. Os movimentos cinematograficos do pós guerra (Neo Realismo, Nouvelle Vague, Cinema Novo etc.), que se aproveitaram da portabilidade das novas câmeras e gravadores, sairam do estúdio e ganharam as ruas, mudando de forma radical a aparencia e as formas de expressão do cinema.

Com o advento das cameras eletrônicas portáteis (camcorders), nos anos 80 do século passado, e logo em seguida das cameras digitais – que a princípio gravavam em tape e logo depois em cartões de circuito de estado solido, o peso e as dimensões das câmera foram sensívelmente reduzidas.

Paralelamente a isso, equipamentos de estabilização para câmera na mão, menores e mais baratos, permitiram executar movimentos livres e estáveis , que anteriormente só eram possíveis de serem feitos com o caro e pesado Steadicam. Drones e minicópteros se encarregaram de levar as novas microcameras para as alturas, propiciando imagens inimagináveis de serem captadas há apenas alguns anos.

Entretanto, a  ideia de lançar a edição para dentro do plano, transformando uma sequencia de planos num único plano sequencia não é novidade. Desde Rope (O Festim Diabólico, 1948) de Alfred Hitchcock, a linguagem cinematográfica fluindo sem cortes tinha como único entrave a duração dos rolos de 1000 pés de película, que a 24 fps tinham  aproximadamente 10 minutos de duração. No caso de Rope, rodado em Technicolor 3 strips, a camera blimpada tinha o tamanho de uma geladeira grande. Nunca um making of fez tanta falta como em Rope… Ao ver as fotos do set ficamos imaginando como foi a movimentação da camera, como se deu a remoção de paredes do cenário durante a rodagem dos planos.

O tempo passou, a técnica evoluiu, fomos da película para o digital. Em A Arca Russa (2002) de A. Sokurov, o filme é um único plano, com duração de 99 minutos, todo rodado em  Steadicam. Comparado às câmeras e gravadores atuais, todo o processo de captação parece rudimentar. Um assistente carregava nas costas um enorme gravador digital conectado – via cabo, à câmera.  As mais de 4500 pessoas envolvidas na produção, fizeram  desse filme russo uma espécie de “manifesto anti-montagem” no cinema, justamente na terra de Eisenstein e Pudovkin…

Por conta de tanto desenvolvimento tecnológico nas câmeras e em seus dispositivos de movimentação, o  adágio “Uma ideia na cabeça e uma camera na mão” (e se possível algum dinheiro no banco…), virou  verbete de enciclopédia. A cada dia a linguagem  se beneficia mais e mais das novidades tecnológicas que libertaram as câmeras dos tripés e ombreiras, para transforma-las em olhos alados, capazes de registrar qualquer imagem que o cineasta possa imaginar.

Associados à computação gráfica, esses recursos levam o audiovisual (hoje o termo mais abrangente, que engloba  cinema, TV,  games etc.), por novos caminhos, cujos horizontes ainda sequer podemos vislumbrar. Voltaremos ao assunto.

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